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A Angústia de Domingo

ADULTO

É comum ouvirmos queixas sobre a sensação de desconforto vivida no final da tarde de domingo. Muitas pessoas relatam ter irritação, tristeza, ansiedade e até sintomas físicos.

Estes sentimentos estão relacionados a questões profundas e complexas.

A vida é organizada e estruturada durante a semana por rotinas, compromissos, e demandas externas.

O cotidiano nos convoca constantemente a executar tarefas, cumprir horários e responder às exigências do dia a dia.

Precisamos nos comprometer com a organização da vida, mas quando a rotina se torna mecânica, vivida sem reflexão ou contemplação, pode produzir um afastamento de si mesmo. Aos poucos, a identidade passa a ser sustentada pelo fazer, e não pelo ser.

É como se a despersonalizacao fosse acontecendo paulatinamente na repetição das tarefas.

Quando chega o final de semana há uma modificação nesta organização e abre espaço para a expectativa de descanso, liberdade e lazer. Porém, muitas vezes, espera-se que apenas dois dias sejam capazes de satisfazer nossas expectativas. No entanto, imprevistos acontecem e as próprias contingências da vida limitam aquilo que imaginávamos viver.

O resultado pode ser um sentimento de frustração.

Outro aspecto importante é que nossa cultura também reforça essa experiência de desconforto ao associar o valor pessoal ao desempenho e à produtividade.

Muitas pessoas sabem dizer com clareza quem são profissionalmente, mas encontram dificuldade em responder quem são fora desse contexto. Quando o trabalho ocupa um lugar central na identidade, o final de semana pode ser vivido como uma perda temporária de referências sobre si mesmo. Em vez de aproveitar do descanso, algumas pessoas experimentam um estranho vazio.

O sábado, geralmente, ainda representa a possibilidade. Existe a expectativa de viver aquilo que a semana não permitiu e mesmo quando essas expectativas não se concretizem, o sábado ainda preserva a sensação de que há tempo.

O domingo, no entanto, ocupa um lugar diferente. Se o sábado foi frustrante, o domingo evidencia aquilo que não aconteceu. Se foi muito bom, torna a despedida mais difícil. Em ambos os casos, ele marca o encerramento das possibilidades daquele final de semana.

Por que o domingo não pertence plenamente ao descanso, mas também ainda não é segunda-feira. É um dia de transição, um espaço intermediário que anuncia o retorno das obrigações inevitáveis. Por este motivo, pode ser vivido como uma experiência subjetiva de perda da liberdade.

E é exatamente neste momento que somos povoados sobre perguntas que costumam permanecer silenciadas durante a correria da semana:

Esta é a vida que gostaria de estar vivendo ?

Cada domingo que termina é, de certa forma, mais uma semana que se encerra. Ele nos lembra que o tempo segue seu curso independentemente de nossos planos, confrontando-nos com nossa finitude e com a impotência diante daquilo que não podemos controlar.

Esta reflexão busca expressar o que a angústia de domingo desperta e entende que ela fala mais é sobre o encontro entre o sujeito e perguntas fundamentais sobre sua vida.

Sob essa perspectiva, a angústia do domingo pode ser um convite para refletir sobre as escolhas que organizam nossos dias, sobre o lugar que o trabalho ocupa em nossa identidade e sobre o sentido que estamos atribuindo à nossa própria existência.

Texto de autoria de Rosângela Martins - Todos os direitos reservados
Psicóloga Porto Alegre
CRP 07/05917