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Vínculo Excitante: A Violência como Tentativa de Completude

ADULTO

O amor implica respeito para com o outro e permite o seu pleno desenvolvimento, de forma que este possa ampliar suas potencialidades. Entre as diferentes formas de constituição dos vínculos amorosos, entretanto, existem modalidades relacionais nas quais essa possibilidade de desenvolvimento é comprometida por uma dinâmica marcada pela tensão, pela dependência e pela violência. É nesse campo que o psicanalista argentino Domingo Caratozzolo desenvolve o conceito de “vínculo excitante”, em sua obra O casal violento: uma leitura psicanalítica, que visa compreender uma modalidade especifica de vínculo presente na dinâmica dos casais que estabelecem formas patológicas de relação.

Para este autor no vínculo excitante, o amor dá lugar à possessão e à violência. Violência que liga o casal em um clima permanente de tensão.

Não há permissão para a entrada de um terceiro, como o trabalho, a família, as amizades ou qualquer outro investimento afetivo, pois este ameaçaria a dinâmica do casal, fundada em um vínculo concentrado e intenso a dois. A intenção é fazer de dois um só, fazendo desaparecer cada um como entidade independente.

A arma utilizada é invadir o outro. Segundo Domingo Caratozzolo, o componente sadomasoquista e o ciúme obsessivo constituem uma via para ocupar todo o espaço psíquico dos membros do casal. Como afirma o autor: "...só os dois e o abismo."

Ainda segundo Caratozzolo, "esta forma de vincular-se através da violência se instala e se consolida por mútuo acordo inconsciente entre ambos os participantes."

Esta seria uma das formas de evitar a solidão, as dores não resolvidas e de negar a condição necessária de separação da relação primordial com a mãe. Para evitar o reconhecimento dos próprios limites, busca-se fundir-se àquele com quem se reedita essa relação primária, na tentativa de alcançar uma condição imaginária de completude.

Dessa forma, a violência torna-se o recurso eleito para ocupar o espaço mental do outro e, assim, atingir esse objetivo.

Para Caratozzolo, as formas de relação vividas na família e os traumas da infância influenciam diretamente a formação dos padrões inconscientes e afetivos que irão se manifestar na vida adulta.

Quando a criança vive em um ambiente em que a violência é uma forma de relação, desenvolve naturalmente uma base para o surgimento desse funcionamento vincular. Os excessos de tensão vivenciados podem gerar fixações psíquicas e comprometer a construção de uma base suficientemente segura para o desenvolvimento de uma identidade estável, tornando esses indivíduos mais propensos a estabelecer relacionamentos simbióticos e potencialmente perigosos.

Observa-se, nessa dinâmica, brigas constantes, atitudes frequentes de repreensão, humilhações, insultos e agressões físicas que podem chegar a extremos incontroláveis.

Por meio dessa dinâmica, procura-se, de forma regressiva, mobilizar o outro, habitá-lo psiquicamente, em busca de um lugar jamais alcançado, mas intensamente desejado: voltar ao ventre materno.

Texto de autoria de Rosângela Martins - Todos os direitos reservados
Psicóloga Porto Alegre
CRP 07/05917