Pandemia – Como é viver sem remédio?

ADULTO

A evolução tecnológica nos brindou com inúmeras facilidades, coisas impensáveis em até duas décadas atrás. Não somente a evolução tecnológica, a globalização, a evolução na indústria, na medicina, na economia etc. foram transformando nossa forma de viver.

Passamos a uma era de muita velocidade e à medida que a humanidade ganhava recursos e facilidades, mais aumentava a pressa e a impaciência, gerando expectativas de ser atendida cada vez mais em seus desejos.

Passamos a ter infinitas ofertas de produtos e oportunidades e passamos a consumir compulsivamente. Passamos a trabalhar incessantemente, a fim de ter poder para adquirir os produtos de felicidade. Este processo dava ao homem a idéia de que tudo era possível ser comprado e resolvido com rapidez. Os investimentos máximos eram em buscas de certezas, na compra de soluções de problemas que eram na maioria das vezes terceirizados. E assim vínhamos galopando até cairmos do cavalo.

Com a chegada da Pandemia este homem do consumo que tudo pode se vê limitado, confinado, ameaçado por um inimigo invisível e ainda incompreendido, com uma ameaça real de morte e sem remédio. Fomos distanciados de nossa vida diária gerando crises em diferentes âmbitos, seguido de uma angustia extrema.

Frente à atual situação se torna importante pensar esta mudança brusca na forma de viver humana, os impactos no seu psiquismo e as possíveis transformações que as crises nos oferecem.

Como está este homem? Com que emocionalmente esta lidando neste momento de crise? Como é viver sem remédio?

Observa-se uma grande desorientação com relação ao presente e ao futuro. Muitos desafios foram lançados ao homem com a pandemia e do qual ele não estava preparado para abarcar, além de não ter a frente uma perspectiva confiável de futuro. As mensagens de apoio oferecidas através dos meios de comunicação convidam as pessoas a focar no momento, como forma de organização emocional. Este olhar visa buscar um equilíbrio frente às incertezas. Uma reviravolta na forma de olhar a vida que antes era focado constantemente para o futuro.

A ansiedade é o sentimento mais presente neste momento. Ela é a expressão do medo humano. Um medo natural, frente a tantas incertezas. A ansiedade tem a função de colocar o organismo de sobreaviso quando algo ameaça a estabilidade e integridade emocional. O objetivo é de fazer o homem rever seus planos e buscar saídas como um ensaio para a ação. Porém, visto que a atual situação impõe muitas limitações ao homem, acompanhada de diferentes frustrações, este tende a ter uma exacerbação desta ansiedade, pois se debate e se paralisa frente aquilo que não consegue resolver.

Alterações de humor, como a irritabilidade e a depressão também se manifestam neste momento e causam problemas em diferentes esferas da vida.

Diversas pessoas estão tendo que realizar seu trabalho em casa, no mesmo ambiente em que está a família, com demandas particulares, mas carregada da mesma tensão das incertezas do momento. Muitos têm que conciliar o trabalho com conflitos familiares freqüentes e ás vezes insuportáveis. Soma-se a esta tensão a cobrança de uma produtividade não só específica do seu trabalho, mas também do medo da perda do emprego.

Isto quando há um trabalho remunerado. Pois quando não tem esta remuneração, se sente comprimido pela falta de recursos financeiros necessários para dar conta muitas vezes de condições básicas de sobrevivência.

Os casos de insônia aumentaram consideravelmente, como sinal também desta ansiedade e apreensão que não favorecem o relaxamento para proporcionar o sono reparador.

Fica difícil ao homem dormir com tantas dúvidas, incertezas e medos.

A frustração constante de ter sua liberdade limitada, de desejos não atendidos e da falta de perspectiva pesam sobre o homem.

Doenças psicossomáticas, também aparecem como conseqüência das dores da alma para alguns, visto a dificuldade de assimilar e processar as alterações súbitas seguidas de seus desdobramentos, gerador de diversos prejuízos e achar uma resposta que de conta desta carga emocional e possa proporcionar um equilíbrio físico.

Assim, o homem acostumado ao seu mundo de soluções, a sua usina de sonhos, se desorganiza e se sente em um pesadelo ao se ver sem remédio, sem solução, sem respostas, sem caminho certo, sem idéia de condições para o futuro. A pandemia surge e coloca o homem frente ao seu buraco, gerando uma quebra narcísica em sua onipotência.

Olharmos para esta realidade de frente é o que nos dá a possibilidade de saída para este sufoco, que nada mais é do que o resgate do que perdemos pelo meio do caminho: a conexão do homem à natureza e a forma como ela acontece.

Nosso modo de viver antes da pandemia havia virado as costas para a natureza, ignorando suas forças e suas leis e agora tem que se curvar a ela.

A natureza é movimento, instabilidade, mistério e é maior que nós, humanos. A pandemia fez o homem se conectar com esta realidade, que ele insistia em ignorar. Tirou-nos da corrida delirante e nos colocou em nosso lugar, como parte da natureza e integrado a ela. Hoje somos forçados a olhar para vida e reconhecer o que é essencial.

A escala de tempo vivida pelo ser humano é uma partícula insignificante frente a historia de vida do nosso planeta, e tendemos a achar que o que vivemos em nosso tempo é o padrão de funcionamento do mundo, mas estamos em uma fagulha no tempo de uma coisa muito maior. Vivíamos uma irrealidade, isto que vivemos agora sim é real. Ter esta noção, apesar da dor, e dor faz parte do processo do crescimento humano, nos permite fazer uma reavaliação de valores, nos ligando ao que realmente é importante. Reconstruir o que foi desmoronado a partir de outras bases, permitirá com que possamos nos utilizar desta crise como forma de crescimento.

Teremos que nos reinventar, sermos criativos, resilientes, lidarmos com diferentes perdas, elaborarmos muitos lutos, olharmos para nós de uma forma mais integradora e interdependente. A pandemia nos lembra o quanto estamos interligados e o quanto dependemos um do outro.

Entendermos a fragilidade de nossa vida em um primeiro momento nos apavora, no entanto é através desta consciência que ganhamos nossa força. E veremos neste momento de crise que estar vivo é um bem imensurável e que dinheiro nenhum compra.

julho 2020

Rosângela Martins
Psicóloga
CRP 07/05917